Habitat, res publica

Desde a distinção entre direito privado e direito público, na Roma antiga, tornar público é um dos atos mais nobres da vida social. Publicare é garantir que algo atenda aos interesses da coletividade e reforce o bem comum. O fortalecimento e a defesa da coisa pública são atos de resistência frente às privatizações e às políticas neoliberais que avançam sobre o modo de vida contemporâneo, no qual estimativas apressadas de ganhos monetários fazem retroceder séculos de construção da máquina pública.

Mas é verdade que a noção de público varia: qualquer coisa pode ter acesso público sem ser um bem público. Interessa ao proprietário de uma revista, por exemplo, publicizá-la, vendê-la; entretanto, uma vez que tal objetivo cessa, o direito privado impera e a acessibilidade fica limitada.

O processo pelo qual a revista Habitat passou ao longo das últimas décadas é elucidativo disso. A Habitat foi um periódico publicado entre 1950 e 1965, uma década e meia que rendeu aos leitores de então e aos pósteros uma bela demonstração quanto ao poder que uma revista tem de informar, fascinar, criticar e divertir, como tantas vezes seus primeiros diretores o fizeram. Ela foi concebida pelo casal de italianos Lina Bo Bardi e Pietro Maria Bardi, que com menos de cinco anos vivendo sob os trópicos já se aventuraram na criação da "revista das artes no Brasil". Conforme seu subtítulo, a Habitat era o espaço de expor e debater os ofícios da pintura, escultura, tecelagem, ourivesaria, cerâmica, moda, paisagismo, e sobretudo, arquitetura, sempre com o intuito de apresentar as novidades coevas e as novas leituras de obras do passado.

Já naturalizados brasileiros, o casal se desligou da revista em 1954. A publicação da Habitat prosseguiu porque o Künstlerpaar nunca foi o proprietário da editora que lançava os números, limitando-se à função de diretores, como Lina o foi da revista italiana Domus, que ainda se encontra em atividade. Com a publicação do octogésimo quarto número, a revista foi descontinuada, pois nunca mais ganhou novas edições ou reimpressões. Sessenta anos depois, ainda é possível revisitar as páginas e se maravilhar com a modernidade e singularidades da Habitat.

Contudo, assim como os edifícios do passado, as revistas Habitat também começaram a virar ruínas. Não por seu legado ou validade do conteúdo, mas pelo modo como seus exemplares físicos chegaram até os dias de hoje. Estas relíquias são mantidas em bibliotecas que mantêm vivas as possibilidades de reinterpretar o passado e entender como aqueles grupos pensavam sobre si e sobre seus predecessores. Mas há que se reconhecer que aquelas que chegaram até nós são vencedoras de uma batalha envolvendo frágeis folhas de celulose contra traças, fungos, radiação ultravioleta, canetas, tesouras, suor das mãos e copos com bebidas, sendo este último, o fator que nos trouxe até aqui.

Ao longo da graduação e durante os primeiros meses do mestrado que desenvolvi na FAU-USP, pude manusear as páginas da Habitat, assim como haviam feito milhares de estudantes, pesquisadores e curiosos que visitaram a biblioteca desta escola. Em 2023, estranhei o fato de que alguns de seus números passaram a ser classificados como "Obra especial", isto é, de acesso controlado e sem a possibilidade de empréstimo. Foi então que descobri que alguns de seus exemplares haviam sido danificados por alguém que derrubara água sobre eles. Na impossibilidade de substituição ou ressarcimento, qualquer dano é irreversível.

Se não faltam motivos para as providências tomadas pela escola, por outro lado, seria necessário agir para que a situação não piorasse. Não fazia sentido impedir o acesso público porque isso significaria extingui-la, no entanto, manter as coisas como estavam contribuiria ainda mais para o agravamento do quadro em que se encontram as revistas Habitat. Neste impasse clássico dos estudos documentalistas, é necessário buscar soluções alternativas, como a digitalização do acervo, a fim de permitir o acesso público e conhecer o estado original das revistas, para permitir comparações e restauros futuros. Sabe-se que as digitalizações jamais substituirão o material físico.

Mas a solução era demasiado fácil para que ninguém houvesse pensado em algo semelhante. Bastava descobrir por que ninguém o fez. No dia 20 de abril daquele ano, enviei uma mensagem à minha orientadora, a professora Joana Mello, para quem disse: "Estava pensando em iniciar um diálogo para digitalizar a revista Habitat". Dois minutos depois, ela respondeu: "Acho ótimo!". Fomos conversar com a bibliotecária-chefe da Seção de Materiais Iconográficos, Gisele Ferreira de Brito, e a bibliotecária responsável pelos periódicos, Amarílis Corrêa, que prontamente aceitaram a ideia e se engajaram no projeto, não sem esclarecer todas as questões envolvidas em um projeto dessa proporção, em especial, a necessidade de conseguir os direitos sobre a revista.

Sabíamos que a revista não pertencia à Lina Bo Bardi e Pietro Maria Bardi por conta das pesquisas e contatos feitos com outros pesquisadores, como Fabiana Stuchi, Marina Grinover, Francesco Perrotta-Bosch e Eugenia Gorini. A partir disso, iniciou-se uma grande busca para entender a história da "Habitat Editôra Ltda". Foram meses de pesquisa em acervos, arquivos pessoais, cartórios, bibliotecas e hemerotecas. Assim como em uma investigação policial, os nomes e menções em documentos eram concatenados para entender quem eram aquelas pessoas e quais seus vínculos. Quantas vezes nossas pesquisas nos levaram a quem acreditávamos que eram os descendentes dos proprietários originais, mas ao questioná-los, tínhamos a negativa e precisávamos começar novamente as buscas. Tal qual uma tarefa arqueológica, fomos juntando os fragmentos dos vestígios e formando o vaso.

As inferências mais significativas após as buscas foram duas. Primeiramente, tratava-se de judeus, dado o sobrenome, as origens e o ano de chegada ao Brasil: durante a Segunda Guerra Mundial. Em segundo lugar, tratava-se de uma família constituída de pai, mãe e filha, o que se supôs pelo compartilhamento de sobrenomes, pela nacionalidade brasileira de uma destas pessoas e a hierarquia das funções desempenhadas na editora. Ao estimar as idades, concluiu-se que o pai e a mãe poderiam estar mortos, logo, era necessário realizar uma busca nos obituários, ou melhor, nos arquivos da Chevra Kadisha, associação responsável pelos cuidados com os mortos judeus. E bingo! Encontramos o primeiro documento que comprovava nossas hipóteses.

O caminho lógico e racional aqui mencionado não faz jus à série de suposições e tentativas empregadas, algumas com vitórias, muitas com derrotas, sempre com empolgação. E no início de 2024, finalmente obtivemos o primeiro contato acertado: havíamos encontrado a pessoa que poderia ceder à FAU, caso quisesse, os direitos sobre a revista Habitat. Sua primeira mensagem foi: "Prezado Senhor Vitor Lima/ Agradeço a sua mensagem que é muito oportuna", seguido por "tenho o maior interesse nessa nossa conversa". Liguei e expliquei toda a situação, ressaltando que só poderíamos digitalizar, publicar e lidar com o credenciamento da Habitat mediante a cessão dos direitos. Felizmente, o senhor prontamente se animou e manifestou seu maior interesse por contribuir com a Universidade e com o legado de seus entes, pedindo que combinássemos um dia para as assinaturas. Poucos dias depois, ele parou de responder as mensagens, e após diversas tentativas de contato, descobrimos que ele havia falecido naquele meio tempo. A fatalidade impediu que prosseguíssemos com uma atitude tão esperada por nós e tão significativa para ele.

Ao conversar com a família, novamente explicamos tudo o que havia acontecido no último ano, mostramos a troca de mensagens e eles prontamente se comprometeram a cumprir a vontade do pai, doando inclusive 64 exemplares originais da Revista Habitat à FAU, em mais um ato de generosidade.

Assim, depois de quase dois anos, a FAU-USP se tornou finalmente a detentora dos direitos sobre a revista Habitat, comprometendo-se a zelar por seu legado, digitalizá-la completamente e divulgá-la online, gratuitamente. Se antes, poucos estados brasileiros possuíam a coleção completa da revista Habitat para a consulta de seus pesquisadores, agora todos terão acesso. Na verdade, será possível acessá-la gratuitamente, a qualquer instante e em qualquer parte do mundo, o que possibilitará não apenas estudos mais refinados a partir do sistema de buscas por palavras, como também pesquisas internacionais sobre a arquitetura brasileira. 

Ao transformar algo em um bem público que também é de acesso público, sublinha-se a relevância das instituições públicas, cujo fim encontra-se na melhoria das condições de vida de seus cidadãos. Sendo assim, a Habitat se republica, mas agora como res publica.

Vitor Lima
dezembro 2025
Arquiteto e urbanista pela FAU-USP (2021), mesma instituição onde defendeu seu mestrado intitulado “Lina Bo Bardi: interação entre arquitetura e natureza vegetal” (2024). Atualmente, trabalha na empresa pública São Paulo Urbanismo, da Prefeitura de São Paulo.