Habitat – um projeto cultural de Lina e Pietro
A revista Habitat, bastante lida e comentada em seu tempo, hoje rondaria o esquecimento não fossem os pesquisadores que se dedicam ao período em que esteve em circulação, os quais sistematicamente recorrem a ela a fim de encontrar valioso material que alimenta os mais diversos campos de trabalho. Habitat: revista das artes no Brasil, é uma revista de cultura em que arte, arquitetura, design, cinema, teatro, bailado e fotografia aparecem inseridos no universo de ação cultural, em um momento em que São Paulo se consolidava como metrópole.
Em 84 números publicados ao longo de seus quatorze anos de existência, compreendidos entre outubro de 1950 e dezembro de 1965, é possível identificar diferentes momentos a partir da análise das mudanças de direção, de sua periodicidade e distribuição. Além de sofrer alterações no corpo de colaboradores, fato comum a uma instituição de “vida longa”, Habitat passou por diferentes formas de organização, pelas quais podem-se definir dois grandes períodos:
O primeiro período[1], ao qual me detenho, Habitat tem organização “centralizada” a partir da presença de um Diretor-Geral. Neste estão os primeiros quinze números publicados, entre outubro de 1950 e abril de 1954, o qual contou com a decisiva direção de Lina Bo (1914-1992) e Pietro Maria Bardi (1900-1999). Suas íntimas ligações neste período com o MASP, com o Instituto de Arte Contemporânea (IAC) e com o Studio de Arte Palma, faz com que a Habitat seja lida como parte de um projeto maior de ação no campo cultural, idealizado pelo casal. As páginas da revista colaboram intimamente na divulgação de atividades e ideais compartilhados por essas instituições, o que faz com que a revista seja lida aqui como inseparável da vida e trajetória desses dois intelectuais que alimentaram a cena cultural da capital paulista e do país. À frente de importantes instituições como o MASP (1947) e o MAM-Bahia (1960), e envolvidos em diversas atividades, Bardi e Lina desempenharam papel de destaque no desenvolvimento das artes e da arquitetura no Brasil.
O casal define o caráter da revista como uma publicação que procura apresentar e discutir as diversas linguagens do campo cultural inscritas em um espírito moderno, pelo qual Habitat se apresenta plural nos temas que aborda, no formato que os apresenta, nas pequenas notas, nos curtos ou longos artigos, nos documentos e textos consagrados, nos comentários sobre a recente produção nacional do cinema, teatro, dança; na seção de opinião com as Crônicas de Alencastro e na divulgação e crítica de arquitetura moderna por meio de textos, projetos, ilustrações e fotografias.
Lina e Pietro, no período anterior ao segundo pós-guerra na Itália, estiveram envolvidos em atividades editoriais que são vistas como experiências fundamentais para a realização de Habitat como uma revista que já nasce madura, e cujo projeto tem claros os valores que pretende propagar. A diversidade de colaboradores da revista, vindos de diversos campos de atuação, não constitui um grupo que se organiza a partir da revista, mas colabora para um projeto orientado pelas ideias do casal em que a questão da formação de um público parece evidente.
A arquitetura tem lugar especial, tanto pela parcela que ocupa na revista, quanto pelo envolvimento que seus organizadores guardam com o tema. A valorização de uma arquitetura racionalista, pautada pelos aspectos sociais e seus valores, define a eleição por uma arquitetura artisticamente social, que abre em Habitat espaço para a arquitetura popular ao lado da arquitetura moderna.
A defesa dos mesmos valores define, na revista, o diálogo com a crítica internacional, que colabora para a consolidação da arquitetura moderna no país. A partir do questionamento do excesso de formalismo presente na arquitetura moderna brasileira, representado na revista pelo design suíço Max Bill, Habitat se mostra solidária à consolidação de uma arquitetura comprometida com a sociedade, endossando a discussão com textos e projetos que buscam o amadurecimento da produção local.
Além disso, o papel do arquiteto e urbanista no planejamento das cidades, que enfrentam, já nos anos 50, o reflexo do crescimento desordenado e do adensamento indiscriminado, é uma preocupação constante na revista. Apoiada nos princípios propagados pelos CIAMs, ela aponta soluções e convoca os arquitetos para a ação.
O cruzamento dos diversos planos de discussão do complexo universo cultural apresentado e a clareza das intenções que os unem em Habitat, confirmam a importância da revista na constituição da arquitetura moderna em São Paulo e na revisão do papel do artista-arquiteto na sociedade moderna.
Em 1954, nos últimos dois números desta primeira fase (14 e 15), a revista dedica grande espaço às comemorações do aniversário do IV Centenário de São Paulo, à inauguração do Parque do Ibirapuera e à II Bienal de Artes, evento que apesar de Habitat ter se mostrado crítica, ocupou grande parte de suas publicações no período.
E é na publicação de nº 84, de julho/dezembro de 1965, que a Habitat, assim como outros periódicos, interrompe suas atividades. Um período marcado por profundas mudanças políticas em que a censura assola as editoras e a educação e a cultura ficam sob o controle militar.
O alcance da “missão” de Habitat, naquele momento limitado à distribuição de seus exemplares impressos e, até hoje, restrito a poucos exemplares que resistiram ao tempo, inaugura agora um novo capítulo com a ampliação do seu acesso por meio da publicação online das primeiras 15 publicações. Isso reforça a importância de Habitat na história das artes no Brasil, como fonte de conhecimento e reflexão sobre os anos 50 em São Paulo. Não se trata apenas de documentar um período histórico, mas principalmente de contribuir para a formação de um pensamento crítico e moderno que ainda ressoa nas discussões contemporâneas sobre arte e arquitetura no Brasil.
Fabiana Stuchi
Arquiteta e urbanista graduada pelo IAU-USP (1998) e mestre pela FAU-USP (2007). Com apoio da Fapesp, desenvolveu a pesquisa “Revista Habitat: um olhar moderno sobre os anos 50 em São Paulo”, analisando os quinze primeiros números da publicação. A revista também foi objeto de estudo em sua iniciação científica, no projeto “Arquitetura Moderno no Brasil, anos 50/60: a questão da síntese das artes”, que teve apoio do CNPq.
[1] O segundo período, caracterizado pela descentralização e a extinção do cargo de Diretor-Geral, foi substituído pelos Diretores de Seção, aos quais caberia a coordenação de uma das grandes áreas a que Habitat se dedicaria: arquitetura, artes plásticas, literatura e teatro. Neste, Abelardo de Souza, responsável pela seção de arquitetura entre as publicações de números 16 ao 24, perpetuou muito do espírito que o marcara como um dos principais colaboradores e parceiros de Lina e Pietro nos primeiros anos de Habitat.